
TODO CUIDADO É POUCO PARA PREVENIR OS AFOGAMENTOS
Ignorar o perigo de afogamento é o primeiro passo para os altos índices de mortes no Brasil e no mundo, e as crianças são as maiores vítimas

No feriado de 7 de setembro, o Corpo de Bombeiros de São Paulo registrou a morte de 16 pessoas por afogamento no litoral do Estado e nas represas da região metropolitana. Os altos índices desse incidente em um único fim de semana refletem um problema muito maior, que contabiliza mais de 5,7 mil óbitos e supera a marca de 100 mil afogamentos não fatais por ano no Brasil. Segundo a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), as maiores vítimas são as crianças, pois o afogamento é a segunda causa de morte na faixa etária de 1 a 4 anos, a terceira entre crianças de 5 a 14 anos e a quarta entre adolescentes de 15 a 19 anos de idade. As estatísticas também indicam que 3% de todos os afogamentos ocorrem em piscinas e no entorno do lar, e 52% das mortes atinge crianças de 1 a 9 anos de idade. Crianças na faixa etária de 4 a 12 anos e que sabem nadar se afogam mais pela sucção da bomba em piscinas.
Dados da ONG Criança Segura indicam que, embora em números absolutos os óbitos por afogamentos tenham diminuído nos últimos anos – de 1376 em 2009 para 866 em 2018 –, com crianças de 1 a 4 anos os índices continuam em crescimento, o que demanda uma atenção contínua dos pais e responsáveis. Apesar de as ocorrências em piscinas serem preocupantes por envolverem especialmente menores, 70% das mortes por afogamentos no País ocorrem nas águas doces (rios, lagos, lagoas e represas), e o maior índice de afogamentos não fatais é registrado no litoral devido, especialmente, à presença de guarda-vidas. A chegada da estação mais quente do ano aumenta substancialmente a preocupação das autoridades sobre o tema. Com 7.491 quilômetros de extensão – o 16º maior litoral nacional do mundo, que vai do Nordeste ao Sul –, além de inúmeros rios, lagoas e represas, o Brasil tem o ambiente propício para que ocorram afogamentos. Apesar disso, o País não lidera os índices no mundo.
De acordo com a estimativa mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2014, aproximadamente 370 mil pessoas morrem afogadas no planeta anualmente. Em números absolutos, o Brasil aparece neste relatório como o terceiro país dentre aqueles que reportam mais mortes por afogamentos (6.487, ano base 2011), atrás de Rússia (11.981, em 2010) e Japão (8.999, em 2011). Embora alguns países tenham demonstrado redução no número de óbitos e incidentes aquáticos nos últimos anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) antecipa que o problema deve voltar a crescer, principalmente nos países de baixa renda, se não houver intervenções drásticas, como o estímulo à prevenção.
“No nosso País, mais de 80% dos óbitos acontecem por desconhecimento dos riscos e pelo fato de as pessoas não respeitarem seus próprios limites. Por isso, é importante conhecer o perfil das vítimas e as razões que facilitam o afogamento para fazer o planejamento mais adequado e tomar as medidas de prevenção necessárias para cada área”, resume o Ten. Cel. Médico da reserva do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, David Szpilman, fundador e diretor médico da Sobrasa e membro do Conselho Médico e Prevenção da International Lifesaving Federation (ILS).
O PERIGO ESTÁ NAS PISCINAS
• O afogamento durante o lazer na piscina é duas vezes mais frequente do que a queda acidental
• A faixa etária mais atingida é de 1 a 4 anos de idade (46%)
• Afogamentos ocorrem em piscinas residenciais (49%), clubes e academias (10%), escolas (7%) e outros
• Meninos morrem 2,5 vezes mais em piscinas em relação às meninas
• O risco estimado de óbito em piscina é de 1 para cada 12.782 pessoas em um ano
• Estima-se um gasto médio de R$ 28 milhões/ano com óbitos por afogamentos em piscinas no Brasil
• O Sudeste é o local de maior ocorrência de afogamentos (42%), embora o maior risco seja a região Centro-Oeste, possivelmente por ter um maior número de piscinas
Fonte: Sobrasa (Boletim epidemiológico no Brasil 2019 - http://www.sobrasa.org)
Infância deve ser protegida
Os incidentes em geral são a principal causa de morte de crianças de 1 a 14 anos no Brasil. Anualmente, aproximadamente 3,6 mil crianças nessa faixa etária morrem e outras 111 mil são hospitalizadas devido a afogamentos, quedas, sufocamentos e outros acidentes, segundo dados do site Criança Segura. Para evitar os riscos, os adultos precisam criar ambientes seguros, eliminando todas as ameaças, e o afogamento precisa entrar nessa lista de preocupações. “Em geral, os casos de afogamento na infância ocorrem devido ao descuido dos responsáveis. Uma criança nunca deve ficar sozinha no ambiente aquático, seja piscina, mar, rio, lago, lagoa ou represa”, destaca o Capitão André Elias, do Corpo de Bombeiros de São Paulo, ao acrescentar que todo e qualquer meio líquido é um problema que não pode ser ignorado, porque a força da água sempre será superior à força do ser humano.
É importante lembrar que crianças podem ser vítimas de afogamento até em uma lâmina de água de menos de 2,5cm, como em um balde, bacia, banheira ou vaso sanitário. Mesmo essa pouca quantidade de água pode ser fatal para uma criança que não tem como se defender, não conhece o risco e depende de um adulto que evite esse tipo de perigo. “Como existe uma falta de educação generalizada e de conhecimento ao risco sobre afogamentos, acabam ocorrendo mortes totalmente desnecessárias e absolutamente preveníveis. É fundamental que os adultos orientem as crianças e os adolescentes sobre esse perigo e saibam que o afogamento na infância ocorre em todas as classes sociais”, enfatiza o médico David Szpilman.
SABER NADAR NÃO DIMINUI O RISCO
Ao colocar os filhos pequenos nas aulas de natação, os pais podem ficar com a falsa ilusão de que a criança estáprotegida do risco de afogamento, o que não éverdade. Embora a segurança aquática seja a primeira razão para os pais colocarem as crianças na natação, isso não blinda contra o afogamento. O médico David Szpilman afirma que éimportante entender que, mesmo que uma criança saiba nadar o suficiente para atravessar uma piscina pequena, ao entrar no mar, rio, em uma lagoa ou mesmo em uma piscina mais funda e maior podem ocorrer incidentes. “A criança também pode sofrer um trauma, ter um mal súbito ou mal-estar, receber uma pancada ou um ‘caldo’ de um colega, e tudo isso pode levá-la a se afogar”, adverte.
Boias de braço, boias circulares e colchões de ar também não vão proteger a criança do afogamento. Quando uma criança estácom uma boia, os pais sentem que estámais protegida e que podem ficar menos vigilantes, e aí estáo grande risco. Isso porque, a criança que se apoia em boias de braço ou boias circulares pode virar na água e se afogar; e o colchão ou a boia maior também podem escapar e jogar a criança repentinamente na água. “Em dois ou três minutos submersa, a criança perde a consciência e entra em parada cardiorrespiratória. Após quatro minutos, danos irreversíveis ao cérebro podem ocorrer. Do afogamento para o óbito étudo muito rápido, muito trágico e muito mortal”, acentua o médico. Por isso, a orientação énunca deixar a criança sozinha na piscina.
Fique atento!
• Nunca deixe crianças sozinhas quando estiverem dentro ou próximas da água, nem por um segundo. Garanta que um adulto esteja supervisionando de forma ativa o tempo todo;
• Crianças devem aprender a nadar com instrutores qualificados ou em escolas de natação especializadas. Se os pais ou responsáveis não sabem nadar, devem aprender também;
• Ensine as crianças que nadar sozinhas e sem ninguém por perto é perigoso;
• Muitos afogamentos ocorrem com pessoas que acham que sabem nadar. Não superestime a habilidade de crianças e adolescentes;
• O colete salva-vidas é o equipamento mais seguro para evitar afogamentos. Boias e outros equipamentos infláveis passam uma falsa segurança, mas podem estourar ou virar a qualquer momento;
• Crianças pequenas podem se afogar em qualquer recipiente com mais de 2,5cm de água ou outros líquidos, seja banheira, pia, vaso sanitário, balde, piscina, praia ou rio;
• Ensine as crianças a não correr, empurrar, pular em outras crianças ou simular que estão se afogando quando estiverem na piscina, em lago, rio ou mar;
• Tenha um telefone próximo à área de lazer e o número do atendimento de emergência sempre visível (SAMU: 192; Corpo de Bombeiros: 193).
Proteção física na piscina e atenção constante
As piscinas residenciais, em clubes e condomínios devem estar sempre em locais fechados para evitar a entrada de crianças sozinhas, preferencialmente com grades. O acesso de menores, de qualquer idade, não pode ocorrer sem a presença de um adulto – mesmo que já tenham aprendido a nadar ou estejam em grupo. O gradil deve ser íntegro e não escalável, com altura superior a 1,2m, largura superior a 12cm entre as barras verticais e, no máximo, 8cm entre o piso e o bordo inferior da vedação, isolamento necessário para impedir a passagem de uma criança. O portão deve ser autotravável com abertura para fora, evitando o risco de alguém esquecer aberto. Também é preciso ter atenção para evitar a possibilidade de a criança colocar uma cadeira e ‘escalar’ a grade.
Se a opção for usar coberturas na piscina, as mesmas devem ser rígidas. As coberturas de lona afrouxam em dois ou três meses de uso e a criança pode passar por debaixo do tecido ou mesmo subir no tecido frouxo e cair na água. O médico David Szpilman explica que as coberturas de lona dão uma falsa segurança e não devem ser utilizadas.
A sucção de cabelo e de partes do corpo pelos ralos da piscina também pode levar ao afogamento e, por isso, deve-se usar sempre ralos anti-sucção, instalados a 90cm de distância uns dos outros. A bomba deve ser mantida sempre desligada durante o uso da piscina. Outra sugestão é ensinar flutuação e brincadeiras na água para as crianças a partir dos seis meses, e natação a partir de dois anos; e incentivar o uso de coletes salva-vidas para crianças pequenas e pessoas que não sabem nadar. Além disso, deve-se evitar a instalação de brinquedos próximos à piscina para não atrair as crianças e aumentar o risco.
No caso de adultos, os cuidados incluem não fazer mergulhos de cabeça em locais rasos ou competições de prender a respiração embaixo da água, evitar ingerir bebidas alcoólicas e alimentos pesados antes do banho de piscina e sair imediatamente da água se houver relâmpagos. “O afogamento está presente no nosso meio como uma das principais causas de morte e precisamos falar sobre esse assunto. O afogamento não perdoa”, enfatiza o médico David Szpilman. O especialista defende campanhas de sensibilização, reportagens e outras ações que mostrem para a população as melhores práticas para diminuir esses índices alarmantes, a fim de sensibilizar a sociedade e mostrar que o afogamento é muito frequente.

Água no umbigo, sinal de perigo!
Embora adultos também possam se afogar na piscina, especialmente quando for muito funda ou sofram algum trauma ou mal súbito que os deixem incapazes temporariamente de reagir, é nos rios, nas lagoas e represas que a maior parte desses afogamentos acontece. Dados da Sobrasa indicam que 50% dos adultos que se afogam dizem que sabem nadar e são muitos os motivos que levam a essa estatística. Segundo o Capitão André Elias, do Corpo de Bombeiros de São Paulo, entre as razões estão abuso de substâncias lícitas e ilícitas (álcool, drogas, medicamentos, opioides) antes de entrar para nadar – que levam à perda de controle e à consequente dificuldade de sair de situações difíceis –; excesso de confiança que gera imprudência e falta de respeito aos avisos e às placas de sinalização de risco.
“Há um ditado que diz: água no umbigo, sinal de perigo! Isso significa que, para quem não sabe nadar, a água na altura do umbigo é o limite absoluto. Apesar disso, é importante lembrar que mesmo um exímio nadador pode sofrer um mal súbito e perder o controle dentro da água e, se estiver em local isolado, o risco de um afogamento é muito grande. Por isso, é fundamental não se arriscar e procurar nadar em locais onde tenham guarda-vidas ou divisões aquáticas do Corpo de Bombeiros”, ensina o Capitão André Elias. No mar e nos rios é preciso respeitar as sinalizações que indicam correntes ou canais, porque a correnteza pode arrastar um adulto sem grande esforço. Nadar ou brincar no mar, em rios, lagoas e represas depois de comer também não é recomendado, devido ao risco de ocorrer uma congestão. O Corpo de Bombeiros orienta que, para maior segurança, as atividades aquáticas devem ser sempre realizadas com pelo menos duas pessoas. Em caso de afogamento, o socorro deve ser acionado imediatamente, pois é muito perigoso tentar salvar uma vítima de afogamento sem o treinamento adequado.
DICAS DO CORPO DE BOMBEIROS DE SÃO PAULO
- Procure sempre um local onde exista a presença de guarda-vidas ou da equipe do Corpo de Bombeiros;
- Fique atento e respeite as placas de advertência;
- Procure lugares seguros e sinalizados para as práticas de mergulho;
- Não entre em águas com aviso de perigo;
- Não faça refeições pesadas antes de entrar na água;
- Respeite seus limites e evite arriscar sua vida. As estatísticas apontam muitos casos de afogamento entre pessoas que dizem saber nadar;
- Cuidado redobrado ao mergulhar em águas desconhecidas;
- Procure conhecer a profundidade do local, principalmente em lugares que possuem pedras, como rios e cachoeiras;
- Evite nadar próximo a barcos ou outras embarcações.
Mais salvamento do que nos países desenvolvidos
Em comparação aos países onde os afogamentos também ocorrem com frequência, como Rússia, Índia e China, o Brasil tem o maior número de salvamentos e sistemas de contabilizações de óbitos. Desta forma, é possível saber exatamente quantas pessoas morrem todos os anos no País para tomar medidas de precaução e conscientização adequadas. O Brasil também tem uma situação específica quando se compara com Estados Unidos e Europa, que vivem um inverno muito mais rigoroso e, portanto, ficam até seis meses praticamente sem frequência em águas abertas.
“Temos um litoral com temperatura tropical praticamente o ano inteiro, e isso faz com que a oportunidade seja muito maior para o afogamento. No entanto, conhecer o problema leva a melhores soluções”, ressalta o médico David Szpilman. A redução de 50% na mortalidade por afogamento em 37 anos (1979-2016) aponta que o Brasil está no caminho certo na luta contra essa endemia. Segundo a Sobrasa, quando considerado o valor proporcional ao tamanho da população – que no Brasil é de 2,9 mortes por 100 mil habitantes –, o País se afasta das primeiras colocações e da média mundial (5,2). Mas, ainda assim, fica acima do panorama de países ricos (2,3 por 100 mil habitantes) e da região das Américas (3 por 100 mil habitantes).
Importância dos guarda-vidas
Estimativas da Sobrasa indicam que, em áreas sem supervisão de segurança aquática (guarda-vidas), mais de 30% das pessoas envolvidas em um incidente aquático morreriam em consequência de afogamento por falta de socorro adequado. Por isso, em praias com guarda-vidas ocorre um menor número de afogamentos e 99,8% das ações são de prevenção. Nas piscinas coletivas localizadas em condomínios, hotéis, academias e escolas com área espelhada – cuja somatória de dimensões seja inferior a 100m2 e profundidade inferior a 1,4m – não há obrigação de guarda-vidas. No entanto, a área deverá ter, no mínimo, um funcionário por piscina com o curso de emergências aquáticas e um aviso em local visível de que é proibida a entrada de crianças menores de 12 anos desacompanhadas dos pais ou responsáveis. Não existe legislação brasileira que aborde a necessidade ou requisitos para a obrigação de guarda-vidas em áreas conhecidas de banho e turismo (exceção em algumas cidades e estados com legislações específicas). No entanto, algumas regras básicas devem ser seguidas (consulte informações detalhadas no site https://www.sobrasa.org/recomendacao-sobrasa-estimativada-necessidade-do-numero-de-guarda-vidas-em-area-de-lazer-aquatico).
Revista da Piscina - Primavera/Verão 2020